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Exclusiva: Rodrigo Nozé relembra o épico acesso de 98, o silêncio no Castelão e avalia o futuro de Botafogo e Comercial

Em um bate-papo emocionante com nosso Colunista Maicon Douglas, o ídolo botafoguense revive os momentos de glória no Santa Cruz, fala sobre sua fé e deixa conselhos valiosos para a nova geração do futebol de Ribeirão Preto.

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A história do futebol de Ribeirão Preto é escrita por personagens que deixaram suor, paixão e glória nos gramados da cidade. Entre esses nomes, o de Rodrigo Nozé brilha com destaque. Revelado nas categorias de base do Botafogo, o ex-jogador foi peça fundamental na reconstrução do clube nos anos 90, sendo protagonista nos acessos de 1996 e no inesquecível esquadrão da Série B de 1998.

Nesta entrevista exclusiva ao Futebolando Pelo Mundo, Nozé abre o coração sobre o início difícil, os bastidores das grandes vitórias (como o histórico gol contra o Sampaio Corrêa para 60 mil pessoas), analisa o atual momento de Botafogo e Comercial, e compartilha como a fé e a família moldaram o homem que ele é hoje.

Confira na íntegra:

O INÍCIO E A FORMAÇÃO EM RIBEIRÃO PRETO

Maicon Douglas: Nascido e criado em Ribeirão Preto, a sua história se mistura com a do futebol local. Como foram os seus primeiros passos nas categorias de base do Botafogo e quais foram as maiores dificuldades até conseguir se firmar no profissional?

Rodrigo Nozé: Sou nascido e criado em Ribeirão Preto, e minha história se confunde com a do futebol da cidade. Comecei aos 5 anos na antiga Arca, clube da Antártica, onde permaneci até os 7 ou 8 anos, sendo treinado pelo Santão. Após o falecimento dele, fui para o Botafogo Futebol Clube, no campo do Poli, na Vila Tibério, onde joguei até 1984. Depois, por questões de logística, me mudei para uma região mais próxima do Comercial Futebol Clube, onde passei a atuar e permaneci até 1988. Nesse período, ocorreram algumas situações desagradáveis, e acabei recebendo um convite para retornar ao Botafogo. Foi lá que fiz toda a minha formação nas categorias de base, do infantil ao juniores, até me profissionalizar em 1993. Permaneci no clube como jogador profissional até o final de 1999.

Maicon Douglas: Rodrigo, como alguém que viveu as categorias de base na prática e hoje acompanha o futebol de fora, qual a sua análise sobre o atual momento das bases de Botafogo e Comercial? Na sua visão de especialista, o que ainda falta para que Ribeirão Preto recupere com força total a fama de ‘Celeiro de Campeões’?

Rodrigo Nozé: Acredito que, além de investimentos nas categorias de base, é fundamental que os profissionais, especialmente os treinadores, deem uma atenção ainda maior aos fundamentos do jogo, aprimorando a parte técnica dos atletas desde cedo. Mas não é só isso. É essencial também trabalhar a disciplina, o comprometimento e, principalmente, a formação do cidadão. O futebol precisa ser visto como uma ferramenta de desenvolvimento humano. Na minha visão, quando conseguimos unir investimento, qualidade técnica e formação humana, criamos uma base sólida. É justamente esse conjunto que pode fazer com que cidades como Ribeirão Preto voltem a se destacar e retomem, com força total, a fama de “Celeiro de Campeões”.

A ERA DE OURO: OS ACESSOS DE 96 E 98

Maicon Douglas: Você participou ativamente da reconstrução do clube com o vice-campeonato da Série C em 1996. Na sua visão, qual foi o diferencial daquele grupo para conseguir um acesso tão importante e comemorado pela torcida?

Rodrigo Nozé: O grande diferencial daquele grupo, além da qualidade técnica e física, era a amizade e a união entre os jogadores. Havia um ambiente muito positivo, de confiança e comprometimento coletivo. Outro ponto importante é que muitos atletas já jogavam juntos desde as categorias de base, o que fortalecia ainda mais o entrosamento. E não posso deixar de destacar a torcida do Botafogo, que foi, sem dúvida, o nosso 12º jogador. O apoio vindo das arquibancadas foi essencial.

Maicon Douglas: Em 1998, o Botafogo montou um esquadrão histórico para a Série B. Naquele momento, você tinha 24 anos e retornava de um empréstimo à Inter de Bebedouro. Como foi processar esse ‘salto’ técnico e emocional para ser peça decisiva em um Brasileirão em andamento?

Rodrigo Nozé: Antes mesmo de terminar o Campeonato Paulista, fui emprestado à Inter de Bebedouro. Quando retornei ao Botafogo, a equipe já estava na terceira partida da Série B de 1998. Eu já conhecia a maioria do elenco, que era formado por jogadores de muita qualidade, entre eles o Dorival Júnior. Isso facilitou bastante a minha adaptação. Claro que existia a pressão, mas eu estava muito consciente das minhas condições técnicas e físicas. Entrei com o objetivo de fazer um grande campeonato e, felizmente, consegui corresponder, sendo considerado um dos destaques daquela Série B.

Maicon Douglas: Nozé, é impossível não falar sobre aquele duelo histórico contra o Sampaio Corrêa. Diante de um Castelão com mais de 60 mil pessoas, você silenciou o estádio com o gol da vitória. O que passou pela sua cabeça naquele momento?

Rodrigo Nozé: Bem lembrado. Foi um gol muito especial, em um cenário impressionante. Jogar contra o Sampaio Corrêa no Castelão, com mais de 60 mil pessoas, é algo que marca qualquer jogador. No momento do gol, foi uma mistura de emoção e concentração. Ver o estádio, que estava completamente tomado pela torcida adversária, silenciar de repente, é algo difícil de descrever. Acredito que aquela vitória teve um papel fundamental para o grupo. Foi ali que começamos a construir uma identidade mais forte e passamos a acreditar de verdade que o acesso era muito próximo da nossa realidade.

Maicon Douglas: O jogo que selou o acesso à elite em 1998 colocou mais de 40 mil pessoas no Santa Cruz. Para você, que estava lá dentro do campo, como era a sensação de sentir o estádio pulsando desse jeito? O futebol de hoje perdeu essa mística do ‘caldeirão’?

Rodrigo Nozé: É realmente triste ver, hoje, muitos estádios mais vazios, principalmente em uma cidade com tanta tradição como Ribeirão Preto. Naquela época, fizemos um grande campeonato com vários atletas “prata da casa”, o que gerava uma identificação muito forte com a torcida. No jogo do acesso, a sensação dentro de campo era indescritível. Era um verdadeiro “mar de gente”, um verdadeiro caldeirão que empurrava a equipe o tempo todo. Para mim, aquele dia foi ainda mais especial. Além de todo o significado profissional, eu estava completando um mês de casado. Gratidão a Deus por tudo.

Maicon Douglas: E nesta sexta-feira, o Botafogo tem um desafio contra o Criciúma. Você foi protagonista da única vitória do Pantera em solo catarinense contra esse adversário. O que o time atual precisa herdar daquela vitória histórica?

Rodrigo Nozé: Fico muito feliz em saber que faço parte dessa equipe que conquistou essa única vitória. Lembro que entramos em campo com muita entrega, jogando com o coração, mas sem abrir mão do controle emocional. Taticamente, fomos muito disciplinados. O Botafogo de hoje vem apresentando um bom futebol. Se conseguir manter o foco do início ao fim e ter essa mesma entrega, tem grandes chances de conquistar um resultado positivo.

O PRESENTE DO FUTEBOL DE RIBEIRÃO

Maicon Douglas: O Botafogo vive hoje uma realidade consolidada na Série B. Como ex-jogador e revelação do clube, como você avalia o atual momento do Botafogo e quais são as suas expectativas?

Rodrigo Nozé: Hoje o Botafogo apresenta uma equipe organizada, com um esquema tático bem definido e jogadores de boa qualidade. É um time que demonstra consistência. Acredito que o clube tem tudo para fazer uma grande campanha. Mas, para isso, é fundamental manter a união do grupo, colocando a instituição acima de qualquer interesse individual.

Maicon Douglas: Falando sobre o grande rival histórico, qual a sua visão sobre a situação atual do Comercial e o que espera do clube nos próximos anos?

Rodrigo Nozé: Acredito que o Comercial passa por um momento que exige mudanças estruturais importantes. A transformação em SAF pode ser um caminho interessante, pois tende a trazer mais profissionalização. É fundamental contar com uma gestão eficiente e competente. Minha expectativa é que o Comercial consiga se reestruturar para que possamos reviver grandes clássicos “Come-Fogo”, com ambos atuando no mesmo nível competitivo.

O HOMEM POR TRÁS DO ATLETA

Maicon Douglas: Sabemos que você é um homem muito dedicado à sua família. Como os valores cristãos ajudaram a moldar o Rodrigo “pós-futebol” e como você busca fazer a diferença na comunidade?

Rodrigo Nozé: Desde a época em que ainda jogava, já participava das reuniões dos Atletas de Cristo. Deus me deu livramentos que marcaram profundamente a minha história, como o acidente motociclístico em 1996 e uma situação delicada envolvendo a vida da minha esposa. A família é o meu alicerce. No pós-futebol, esses valores direcionaram minhas atitudes. Junto com amigos, tenho buscado ajudar pessoas em situação de dificuldade. Acredito que esse é o verdadeiro propósito: servir e cuidar das pessoas.

Maicon Douglas: Para os garotos que estão hoje nas categorias de base sonhando em jogar ao lado de grandes craques, qual é o principal conselho que você deixa?

Rodrigo Nozé: O principal conselho é a dedicação máxima no dia a dia. Também é fundamental entender que o futebol é um esporte coletivo. Outro ponto essencial é a humildade. Com trabalho, disciplina e foco, o caminho se torna mais sólido e possível.

Maicon Douglas: Para encerrarmos com chave de ouro: se você pudesse hoje encontrar aquele jovem Nozé que estava começando na base do Pantera, cheio de incertezas, o que o homem de hoje diria para aquele menino cheio de sonhos?

Rodrigo Nozé: Eu diria para ele ser mais ousado, confiar mais no próprio potencial e não se prender tanto, de forma rígida, à função tática. Sempre tive uma visão muito coletiva do jogo, o que é importante, mas hoje vejo que poderia ter equilibrado mais isso com uma postura mais agressiva individualmente. Diria para aquele garoto arriscar mais, finalizar mais vezes, ter mais fome de gol. Eu batia bem na bola, e se tivesse me permitido mais, com certeza teria feito ainda mais gols. No fim, é sobre encontrar esse equilíbrio entre o coletivo e a coragem de assumir protagonismo quando a oportunidade aparece.

Realizar esta entrevista com o Rodrigo Nozé foi mais do que um trabalho jornalístico; foi uma viagem no tempo. Ao ouvir os detalhes daquele gol histórico no Castelão e a emoção de ver um Santa Cruz pulsando com 40 mil almas, fica claro que o futebol é feito de memória, mas sobrevive da esperança.

Quero agradecer imensamente ao Nozé pela generosidade em compartilhar sua história com o Futebolando Pelo Mundo. Ele não foi apenas um atleta de técnica refinada, mas um exemplo de caráter e fé que honrou o manto tricolor.

Que as palavras de quem já sentiu o peso da glória sirvam de combustível para o nosso Botafogo de 2026. Que o elenco atual entenda que cada dividida, cada suor e cada gol deste campeonato pode ser o passaporte para a eternidade no coração do torcedor ribeirão-pretano.

O acesso de 98 é o nosso orgulho, mas o acesso de 2026 é o nosso sonho atual. Que este grupo escreva seu próprio capítulo, conquiste o acesso à elite e, por que não, traga o título inédito da Série B para a nossa Joia.

A história está esperando por vocês. Vamos juntos, Pantera!

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