De Ribeirão para o Mundo: A história de Botafogo e Comercial com a camisa da Seleção Brasileira
Você sabia que craques de Copas do Mundo e lendas que pararam até mesmo o Rei Pelé vestiram as camisas do Pantera e do Leão antes de brilharem com a Amarelinha? O Futebolando pelo Mundo fez um mergulho histórico.
- 24 de março de 2026
- Em: Botafogo, Comercial, Copa do Mundo
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Ribeirão Preto é, indiscutivelmente, um dos maiores polos do futebol do interior do Brasil. Mas a força dos gramados do Santa Cruz e do Palma Travassos ultrapassa as fronteiras do estado de São Paulo. Ao longo das décadas, Botafogo e Comercial não apenas incomodaram os gigantes da capital, mas também cederam e revelaram talentos que vestiram a camisa mais pesada do planeta: a da Seleção Brasileira.
Fizemos um mergulho nos arquivos do nosso futebol para resgatar os grandes nomes que ligam o clássico Come-Fogo à Seleção Pentacampeã do Mundo. Confira!
Ribeirão Preto tem muitos motivos para se orgulhar de sua força no esporte, mas poucas cidades no planeta podem bater no peito e dizer que revelaram, em uma mesma família, dois dos maiores camisas 10 da história do futebol.
A trajetória dos irmãos Sócrates e Raí, criados nas categorias de base do Botafogo-SP, é o maior atestado do peso que o “Celeiro de Campeões” tem no cenário nacional e internacional. Do Estádio Santa Cruz para os maiores palcos do mundo, relembramos agora como esses dois gigantes construíram seus legados.
O Doutor Sócrates e a magia do calcanhar
O primogênito futebolístico da família Vieira de Oliveira não era apenas um jogador; era um pensador da bola. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira iniciou sua caminhada no time profissional do Botafogo em 1974.
O que tornava sua história no Pantera ainda mais espetacular era a sua jornada dupla: enquanto desfilava sua elegância, passes de calcanhar e visão de jogo impecável nos gramados do interior, ele cursava Medicina na USP de Ribeirão Preto. Sócrates não participava de todos os treinos físicos, mas sua genialidade era tanta que ele compensava qualquer ausência com atuações de gala no final de semana.
Em 1978, já formado, o “Doutor” deixou o Botafogo e partiu para o Corinthians, onde se tornou um dos maiores ídolos da história do clube e líder da Democracia Corinthiana.
Sócrates atingiu o topo do respeito mundial em 1982. Na Copa do Mundo da Espanha, ele foi o capitão daquela que é considerada por muitos a Seleção Brasileira mais mágica de todos os tempos, jogando ao lado de Zico, Falcão e Cerezo. A taça não veio, mas Sócrates foi eternizado como um dos grandes gênios do futebol mundial.
Raí, o terror do Morumbi e a glória do Tetracampeonato
Carregar o peso de ser o “irmão mais novo do Sócrates” poderia ter esmagado a carreira de qualquer jovem atleta. Mas não a de Raí Souza Vieira de Oliveira.
Dez anos mais novo que o Doutor, Raí também deu seus primeiros passos no Botafogo-SP, subindo aos profissionais do Tricolor no início dos anos 80. Diferente do irmão, que era mais cadenciado e cerebral, Raí era um meia-atacante de muita força física, passadas largas, infiltração na área e faro de gol. Ele precisou de muita personalidade para provar, nos gramados de Ribeirão Preto, que não era apenas uma sombra do primogênito.
O talento o levou ao São Paulo Futebol Clube no final da década de 80. Sob o comando de Telê Santana, Raí explodiu. Transformou-se no “Terror do Morumbi”, o grande maestro do time que conquistou o bicampeonato da Libertadores e do Mundial de Clubes (1992 e 1993), desbancando gigantes como o Barcelona.
A consagração definitiva com a Amarelinha aconteceu em 1994, nos Estados Unidos. Raí chegou à Copa do Mundo como o camisa 10 e capitão da Seleção Brasileira no início do torneio. Fez gol na estreia contra a Rússia e fez parte do elenco histórico que quebrou um jejum de 24 anos, conquistando o tão sonhado Tetracampeonato Mundial para o Brasil. Mais tarde, ainda se tornou ídolo absoluto no Paris Saint-Germain (PSG), na França.
O Legado que fica em Ribeirão Preto
As histórias de Sócrates e Raí seguiram caminhos diferentes após deixarem o interior. Um usou a bola como instrumento de arte e reflexão política; o outro se tornou um símbolo de eficiência, força e títulos internacionais.
No entanto, o ponto de partida de ambos é o mesmo: os gramados da Vila Tibério. Os “Irmãos de Ouro” são a prova viva de que a camisa do Botafogo-SP carrega uma mística diferente, capaz de forjar talentos que atravessam gerações e marcam, para sempre, a história do esporte mais popular do planeta.

Campeões e Mundialistas:
José Guilherme Baldocchi, ou simplesmente Baldocchi, como ficou conhecido durante sua vitoriosa carreira, vestiu a camisa botafoguense por quase dois anos. Foi tempo mais do que suficiente para se tornar ídolo de uma fanática torcida e pavimentar o caminho rumo ao topo do mundo. O zagueiro foi contratado pelo Botafogo em agosto de 1964, quando tinha apenas 18 anos. Ele chamou a atenção dos dirigentes Walter Dib e Lino Strambi durante um amistoso do Tricolor diante do Batatais, time de sua cidade natal, que disputava a Segunda Divisão. Com um futebol vistoso dentro de campo e considerado um excelente cabeceador, Baldocchi se destacou rapidamente e subiu para o elenco principal do Pantera, onde disputou os Campeonatos Paulistas de 1965 e 1966.

O gol inesquecível no Come-Fogo e os holofotes:
Brilhar com a camisa do Pantera exige personalidade em clássicos, e o zagueiro guarda com carinho uma memória especial do dérbi local: “Lembro um Come-Fogo realizado em 1966 no Estádio Palma Travassos. Perdíamos por 1 a 0 até o último minuto, quando consegui empatar após uma cobrança de escanteio. Aproveitei a sobra da jogada e finalizei de canhota na forquilha. E olha que não sou canhoto”, lembrou Baldocchi.
Ele também cita outra partida que ajudou a colocá-lo na vitrine do futebol brasileiro: “Lembro também que fiz uma excelente partida em uma derrota diante do Santos por 3 a 2″, contou.
Essas atuações seguras despertaram a atenção do Palmeiras, que o contratou em 1966. Baldocchi ficou no Alviverde até 1971 e, neste período, alcançou o sonho de qualquer atleta: foi convocado para a Seleção Brasileira e sagrou-se campeão da Copa do Mundo de 1970, no México, integrando um dos maiores esquadrões de todos os tempos.
A trajetória do zagueiro é um dos maiores orgulhos do Pantera, mas ele é parte de uma linhagem de ouro do clube ribeirão-pretano. Após deixar o Palmeiras, Baldocchi ainda defendeu o Corinthians (entre 1972 e 1976) e encerrou a carreira no Fortaleza em 1977. Olhando para sua trajetória, o ídolo não esquece quem lhe deu a primeira grande oportunidade: “Agradeço todos os clubes, mas o Batatais e o Botafogo são dois times especiais na minha carreira. O Batatais me abriu as portas, enquanto o Botafogo me projetou para o futebol nacional e consegui chegar à seleção”, completou.
Cicinho: O Expresso Tricolor rumo à Alemanha (2006)
Nascido na vizinha Pradópolis, Cícero João de Cézare, o Cicinho, sempre teve uma ligação umbilical com Ribeirão Preto. Com uma velocidade impressionante e uma vocação ofensiva que chamava a atenção de qualquer olheiro, ele iniciou sua jornada nas categorias de base do Botafogo-SP no final da década de 1990.
No profissional do Pantera, o lateral logo mostrou que o interior paulista seria pequeno para o seu talento. Suas arrancadas fulminantes pelo corredor direito o levaram ao Atlético Mineiro e, posteriormente, ao São Paulo, onde viveu o auge de sua forma física e técnica, conquistando a Libertadores e o Mundial de Clubes em 2005.
O Passaporte Carimbado: O desempenho avassalador chamou a atenção do poderoso Real Madrid, da Espanha, e, claro, de Carlos Alberto Parreira, técnico da Seleção Brasileira. Cicinho foi convocado para defender o Brasil na Copa das Confederações de 2005 (sendo campeão) e garantiu sua vaga na constelação que disputou a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, jogando ao lado de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká.

Imagem: Reuters
Doni: A Muralha do Paulistão 2001 rumo à África do Sul (2010)
Se Cicinho brilhava atacando, a outra revelação botafoguense fez história evitando gols. Doniéber Alexander Marangon, o Doni, chegou ao Botafogo-SP e encontrou no Estádio Santa Cruz o ambiente perfeito para desenvolver seus reflexos e sua frieza debaixo das traves.
O momento de virada na carreira de Doni aconteceu no inesquecível Campeonato Paulista de 2001. Fechando o gol do Pantera com atuações espetaculares, ele foi um dos pilares da histórica campanha que levou o Botafogo à grande final estadual contra o Corinthians. Aquela vitrine foi o trampolim perfeito. Pouco tempo depois, o goleiro se transferiu para o próprio Corinthians, passou pelo Santos e desembarcou no futebol europeu para se tornar ídolo da Roma, na Itália.
O Passaporte Carimbado: Na Europa, Doni ganhou a confiança do técnico Dunga. Com atuações seguras e pegando pênaltis decisivos, ele foi o goleiro titular na conquista da Copa América de 2007. A consistência debaixo das traves lhe rendeu a convocação para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul. Do vice-campeonato paulista de 2001 para o maior torneio de futebol da Terra, o goleiro provou o peso da camisa tricolor.

As trajetórias de Cicinho e Doni provam que os gramados do Santa Cruz continuam sendo um solo fértil para o talento. Eles representam a conexão direta entre a paixão do futebol do interior e a glória internacional, mantendo viva a chama e o orgulho do eterno “Celeiro de Campeões”.
A tradição continua:
E se engana quem acha que isso é coisa só do passado. O trabalho de base continua rendendo frutos recentes. Em setembro de 2024, o jovem meia João Costa foi convocado para defender a Seleção Brasileira Sub-20, provando que o radar da CBF continua apontado para Ribeirão Preto.

PÍTER: A ‘Rocha Negra’ do Comercial que parou o Rei Pelé e chegou à Seleção Brasileira
Se de um lado da cidade o Botafogo revelou talentos mundiais, do outro lado, o Comercial construiu esquadrões temidos que batiam de frente com qualquer gigante do futebol brasileiro. E o grande símbolo dessa força e resistência alvinegra atende por um nome que impunha respeito imediato: Píter, o eterno “Rocha Negra”.
Eurípedes Fernandes, o Píter, não era apenas um zagueiro. Ele era uma verdadeira muralha que vestiu a camisa do Leão do Norte e elevou o nome do Comercial ao cenário internacional.
Os duelos contra o Rei e o respeito de Pelé
Nas décadas de 1960, enfrentar o Santos era sinônimo de terror para a maioria das defesas do mundo. Mas quando o time da Vila Belmiro desembarcava em Ribeirão Preto para enfrentar o Comercial, Pelé sabia que não teria vida fácil. Com um porte físico invejável, força descomunal e uma técnica apurada para os desarmes, Píter protagonizou duelos épicos contra o Rei do Futebol. O detalhe que mais chamava a atenção era a sua lealdade. O zagueiro comercialino era duro, mas raramente cometia faltas desleais. O próprio Pelé, em diversas entrevistas ao longo da vida, fez questão de exaltar o ídolo do Bafo, cravando que Píter foi “um dos marcadores mais leais e implacáveis que já enfrentei em toda a minha carreira”. O apelido de “Rocha Negra” não foi dado por acaso; passar por ele era como tentar derrubar uma montanha.
A Glória com a camisa da Seleção
O desempenho assustadoramente regular e dominante de Píter com a camisa do Comercial não passou despercebido pelos olhos da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF). No auge de sua forma física e técnica, o zagueiro foi recompensado com a convocação para a Seleção Brasileira de Novos. Levando consigo o orgulho do Estádio Palma Travassos, Píter arrumou as malas e viajou com a delegação nacional para disputar a Copa América de 1963, realizada na Bolívia. Lá, ele vestiu a cobiçada Amarelinha, mostrando que o interior paulista, e especificamente o Comercial de Ribeirão Preto, tinha defensores do mais alto calibre internacional.

Até hoje, o nome de Píter é reverenciado nas arquibancadas do Leão do Norte. A “Rocha Negra” representa a essência do que o torcedor comercialino exige de quem veste essa camisa: raça, entrega absoluta, lealdade e a coragem de olhar nos olhos de qualquer adversário — mesmo que ele seja o maior jogador de todos os tempos.
Talento na Base, o “Pequetito Rebelde”:
Nas categorias de base, o talento alvinegro também já foi convocado. Em 1982, o habilidoso ponta-direita Mauricinho chamou a atenção do técnico Jair Pereira por suas atuações avassaladoras no Palma Travassos e foi chamado para integrar a Seleção Brasileira Sub-20 na preparação para o Sul-Americano da categoria.

A história de Mauricinho com a bola começou nos campinhos de terra da Vila Seixas. O talento era tão evidente que, aos 14 anos, ele já estava nas categorias de base do Comercial. A ascensão foi meteórica: em 1981, com apenas 17 anos, o lendário técnico Alfredinho o promoveu ao time principal do Leão do Norte, transformando o jovem de 1,65m em um ponta-direita infernal.
Sua velocidade, habilidade e os dribles desconcertantes logo o transformaram no grande destaque do Bafo. No Campeonato Paulista de 1982, suas atuações chamaram a atenção do técnico Jair Pereira, que não hesitou em convocá-lo para a Seleção Brasileira Sub-20.
Vestindo a camisa do Comercial, Mauricinho viajou com a delegação brasileira e fez história. Primeiro, ajudou o Brasil a conquistar o Sul-Americano Sub-20 de 1983. Pouco tempo depois, desembarcou no México para a disputa do Mundial da categoria.
O Brasil fez uma campanha impecável e, na grande final, derrotou a arquirrival Argentina por 1 a 0, diante de mais de 110 mil pessoas no Estádio Azteca. Mauricinho voltava para o Estádio Palma Travassos não apenas como uma promessa, mas com a medalha de Campeão do Mundo no peito — um orgulho imensurável para a torcida alvinegra.

O mundo ficou pequeno para o talento do camisa 7. Em 1984, Mauricinho deixou o Comercial e foi contratado pelo Vasco da Gama, onde formou uma geração de ouro ao lado de craques como Romário e Roberto Dinamite. Ele ainda acumulou passagens por gigantes como Palmeiras, Botafogo, São Paulo, e teve experiências no futebol europeu e japonês.
Mas o bom filho a casa torna. Em 2000, aos 36 anos, o eterno “Pequetito Rebelde” decidiu encerrar sua carreira profissional exatamente onde tudo começou: no gramado do Palma Travassos, vestindo a camisa do Comercial. Até hoje, a marca de Mauricinho segue intacta. Um lembrete eterno da força da base comercialina e de que, no interior paulista, também se forjam campeões do mundo.
A história prova que Ribeirão Preto sempre foi um terreno fértil para o futebol brasileiro. Seja revelando gênios para o mundo ou cedendo ídolos locais para defender a Amarelinha, o Come-Fogo tem um peso que poucas cidades do interior conseguem ostentar.
E para você, torcedor: qual desses craques deixou mais saudade nos gramados da nossa cidade? Deixe sua opinião nos comentários!
Este material especial foi elaborado pela redação do Futebolando pelo Mundo com base em um amplo cruzamento de dados históricos e jornalísticos. Nossos agradecimentos e créditos aos seguintes acervos e profissionais:
- Agência Botafogo / Luiz Cosenzo: Relatos históricos, citações originais e dados biográficos referentes à passagem do zagueiro Baldocchi pelo Botafogo-SP.
- Globo Esporte: Dados históricos e reportagem especial sobre a marca exclusiva do ex-jogador Mauricinho no título do Mundial Sub-20 de 1983.
- Portal Terceiro Tempo (Seção “Que Fim Levou?”, de Milton Neves): Acervo fotográfico e biográfico sobre a carreira de Píter (a “Rocha Negra”) e seus memoráveis duelos contra Pelé, além de dados sobre Sócrates, Raí, Cicinho e Doni.
- Federação Paulista de Futebol (FPF) e CBF: Registros oficiais de convocações, súmulas e dados de competições estaduais e torneios internacionais.
- Record TV Interior SP: Cobertura jornalística recente sobre a convocação do meia João Costa para a Seleção Brasileira Sub-20.
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