De Ribeirão Preto ao Catar! Gustavo Silva relembra glórias no Come-Fogo, avalia evolução árabe no futebol e muito mais!
Em uma entrevista exclusiva e muito franca ao Futebolando Pelo Mundo, Gustavo falou sobre a sua paixão por Ribeirão Preto, os desafios de adaptar a metodologia brasileira aos atletas árabes, a frieza do torcedor local nos estádios e os dias de apreensão com as sirenes de guerra durante os treinamentos no Al Markhiya SC.
- 2 de abril de 2026
- Em: Destaques
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O futebol tem o poder de levar profissionais aos lugares mais distantes e inimagináveis do planeta. Mas, independentemente de onde estejam, as raízes nunca são esquecidas. É exatamente essa a história de Gustavo Silva, preparador físico natural de Ribeirão Preto, que há 18 anos construiu uma carreira sólida e respeitada no futebol do Catar.
Com passagens marcantes pelas categorias de base e pelo profissional da dupla Come-Fogo, Gustavo fez parte da comissão técnica daquele inesquecível Botafogo-SP vice-campeão Paulista em 2001. De lá para cá, o mundo girou.

Ele aceitou o desafio de desbravar o Oriente Médio em uma época onde a Copa do Mundo no país era apenas uma miragem, acompanhou de perto a transformação estrutural do esporte árabe e, mais recentemente, tem vivenciado na pele os impactos diretos das tensões geopolíticas e conflitos armados na região.
Em uma entrevista exclusiva e muito franca ao Colunista Maicon Douglas, Gustavo falou sobre a sua paixão por Ribeirão Preto, os desafios de adaptar a metodologia brasileira aos atletas árabes, a frieza do torcedor local nos estádios e os dias de apreensão com as sirenes de guerra durante os treinamentos no Al Markhiya SC.
Confira o bate-papo na íntegra:
Maicon Douglas: Gustavo, você iniciou sua caminhada nas categorias de base do Botafogo-SP e, mais tarde, trabalhava no Comercial-SP quando recebeu o convite para o Catar. Como essa vivência intensa na rivalidade do Come-Fogo e no futebol de Ribeirão Preto forjou o preparador físico que você é hoje?
Gustavo Silva: Sim, eu vivi Come-Fogo desde que jogava nas categorias de base, primeiro no Comercial até os 13 anos e depois pelo Botafogo a partir dos 14 anos até os 20. Depois como Preparador Físico também trabalhei na base e no Profissional e tivemos vários clássicos disputados, sempre com muita rivalidade, mas de uma forma muito sadia. Isso dá uma bagagem pra vida e ajudou com certeza em minha preparação e continuidade na carreira de Preparador Físico.
Maicon Douglas: Em 2001, você fez parte da comissão técnica daquele esquadrão histórico do Botafogo-SP que foi vice-campeão Paulista, com jogadores como Doni, Leandro e Luciano Ratinho. Qual foi o grande segredo da preparação física daquele grupo para bater de frente com os gigantes da capital?

Gustavo Silva: O grupo de jogadores e comissão técnica era muito bom. Nós éramos 2 preparadores físicos, comandados pelo saudoso Márcio Lassali, eu e o Tom (hoje Coordenador da academia Acahdre do ex -jogador Bordon), amigo de longa data. Isso facilitou muito no trabalho dos jogadores e tendo vários talentos como você citou anteriormente. Inclusive eu tinha parado de jogar a pouco tempo e os 3 foram meus companheiros e depois fui vir a ser preparador deles também. Essa amizade, aliada ao trabalho e talento dos jogadores, fez com que tivéssemos uma campanha histórica de vice- campeonato Paulista, que marca a história do Botafogo até hoje.
Maicon Douglas: Sua ida para o Catar aconteceu após um convite que surgiu de um encontro com o Edson Aguiar, seu ex-treinador. Como foi aquele impacto inicial de sair do Comercial, em Ribeirão Preto, para treinar a categoria Sub-13 do Al Rayyan em uma cultura completamente diferente?
Gustavo Silva: Na realidade eu já tinha saído do Comercial e estava no Olímpia-SP na série A3, onde fomos campeões também naquele ano, ascendendo a série A2. De lá veio o convite do Edson em que era um sonho trabalhar no exterior de alguma forma. Acabei indo como treinador do sub-13 do Al Rayyan (onde joga Roger Guedes atualmente). Foi uma adaptação difícil inicialmente, pela cultura, pelo nível dos jogadores, pelo clima e por tudo o que mais veio em seguida. Mas com o tempo e experiência fui aprendendo a lidar com o mundo árabe em geral e isso me deu suporte para estar até hoje (já são 18 anos)…



GALERIA: A trajetória vitoriosa antes do Oriente Médio
Além das grandes memórias no Come-Fogo, Gustavo Silva acumulou taças e campanhas históricas no futebol do interior paulista e mineiro. O preparador físico abriu seu baú de recordações e compartilhou com a equipe do Futebolando Pelo Mundo alguns registros marcantes dessa época:


Maicon Douglas: Gustavo, estamos em ano de Copa do Mundo e você viveu de perto o ciclo do torneio no Oriente Médio. Quando você chegou ao Catar, o esporte na região era outro, culminando na Copa de 2022, e agora vemos a Arábia Saudita se preparando para 2034. Em sua visão, da sua chegada até 2022, houve uma evolução real no nível competitivo e estrutural dos países árabes? E olhando para 2034, você enxerga essas seleções chegando maduras o suficiente para deixarem de ser apenas anfitriãs e se tornarem protagonistas do torneio?
Gustavo Silva: Houve um crescimento sim dos países árabes, principalmente estrutural, mas não vejo ainda eles sendo protagonistas e derrubando as principais seleções do mundo. Ainda estão muito longe de um nível competitivo a ponto de causar surpresas nas copas do Mundo. Até 2034 ainda tem tempo, mas não acredito que possam evoluir a tempo de mudar o cenário do futebol mundial.
Maicon Douglas: Gustavo, para a Copa de 2026, já temos cinco seleções do Oriente Médio/Ásia Ocidental confirmadas: Arábia Saudita, Catar, Irã, Iraque e a estreante Jordânia. Como você avalia a evolução física e competitiva dessas seleções desde o Mundial de 2022? Com a experiência de quem acompanha o desenvolvimento desses atletas de perto, qual dessas seleções você acredita que tem maior potencial para ser a grande surpresa e desbancar gigantes nesta Copa?
Gustavo Silva: Todas essas seleções evoluíram bastante fisicamente, e as competições na ásia estão cada vez mais disputadas e com muita mais qualidade de jogo que anteriormente. Porém, destaco mais Irã e Arábia Saudita, estas seleções são sempre mais fortes, devido ao nível das ligas locais. A Jordânia fez uma boa competição na última Arab Cup em Janeiro, correndo por fora destas outras seleções que citei.
Maicon Douglas: Gustavo, sabemos que o futebol não é uma bolha isolada da geopolítica. Diante dos recentes conflitos e tensões envolvendo EUA e Irã na região, de que forma isso tem impactado o calendário e a logística do futebol no Catar e as competições continentais? Houve alguma mudança perceptível no clima dos treinamentos ou na organização das partidas do Al Markhiya?
Gustavo Silva: No início da guerra, foi cancelada uma rodada da segunda divisão e uma da primeira divisão. Depois o conflito foi se tornando mais habitual, vamos dizer assim, não que nos acostumamos, mas ficou mais ”normal” a partir de um certo momento. Mas o calendário voltou normalmente em relação aos jogos, estamos na reta final da temporada. Quanto aos treinamentos, foram cancelados 2 no início, mas depois também voltamos a treinar novamente. Teve um dia que soou o alarme durante o treinamento, entramos para dentro do vestiário até mandarem nova mensagem que os mísseis já tinham sido abatidos. É uma situação bastante diferente e inusitada, que jamais vivi anteriormente, e espero não viver novamente…rsrsrs
Maicon Douglas: Gustavo, você vive no Catar com sua esposa e filhos há muitos anos e construuiu sua vida aí. Diante do cenário atual de tensões entre EUA e Irã, como tem sido a rotina da sua família? Houve alguma alteração prática no dia a dia de vocês — como na escola dos filhos ou em locais de lazer — ou o clima de segurança no país ainda permite uma vida normal e o mais importante de tudo, vocês estão bem?
Gustavo Silva: Graças a Deus minha família sempre esteve presente comigo, minhas filhas sempre aqui e minha esposa também. O primeiro dia da guerra foi muito assustador, e os dias subsequentes também. A escola ficou online até essa semana, que voltou a ser presencial. Mas as escolas americanas ainda estão online, pois elas são mais suscetíveis a ataques. Os locais públicos foram todos fechados por um tempo e a recomendação durante pelo menos 3 semanas foi de ficar em casa o máximo possível. Estamos todos bem e seguros, o governo passa um segurança de acordo com as recomendações internas aqui. Foram abatidos 90% dos mísseis, e os que caíram não causaram nenhum dano a civis no país. Porém o espaço aéreo do país ainda se encontra fechado, com alguns voos saindo com horários específicos, somente da Qatar Airways, que é a companhia local.
Maicon Douglas: Gustavo, voltando agora para as quatro linhas: como está sendo a atual temporada do Al Markhiya SC? Quais são os principais objetivos do clube na segunda divisão e como a sua metodologia de preparação física tem ajudado a equipe a buscar o acesso à elite do futebol catariano?
Gustavo Silva: Estamos na reta final do campeonato, na terceira colocação, mas a 3 pontos do líder. Teremos mais 4 jogos neste mês de abril, o primeiro no domingo dia 05. Estamos na luta para voltarmos à primeira divisão, onde caímos a 2 anos atrás. No trabalho de preparação esse ano foi bem estruturado, tivemos pouquíssimas lesões musculares e onde pudemos usar a maioria dos jogadores a maior parte dos jogos. Isso contribui para um melhor desempenho. Na minha metodologia, tento sempre ter os jogadores disponíveis o quanto puder, pois sem lesões e não perdendo sessões, automaticamente se eleva ou pelo menos mantém a condição física.

Maicon Douglas: Gustavo, você chegou ao Catar em uma época em que o projeto da Copa ainda era um sonho distante. De lá para cá, como você sentiu a mudança na relação do torcedor catariano com o futebol? O interesse aumentou genuinamente após 2022? Hoje você percebe um público mais engajado, frequentando os estádios e consumindo o futebol local, ou a cultura do esporte ainda está em fase de maturação entre os nativos?
Gustavo Silva: Olha essa mudança de comportamento do torcedor aqui ainda está longe de mudanças radicais. Infelizmente isso é uma condição que muitos jogadores e membros de comissão técnica ficam frustrados com a falta de torcida e interesse dos mesmos em comparecer aos estádios. Não sei se é porque todos os jogos são televisionados ou por terem um condição financeira melhor, eles não comparecem como tem que ser, e nem o fato da copa de 2022 ter sido aqui ajudou muito. A cultura catari realmente é especial nesse sentido, eles amam o futebol, mas em relação ao público nos estádios, deixam a desejar.
Maicon Douglas: Para encerrarmos, deixe um recado para a torcida de Ribeirão Preto e para os nossos leitores do Futebolando Pelo Mundo. Existe o desejo de voltar a trabalhar no Brasil e, quem sabe, reviver as emoções do Santa Cruz ou do Palma Travassos de perto?
Gustavo Silva: Espero que os torcedores das duas equipes de Ribeirão Preto, deem o suporte necessário e compareçam aos jogos dos times, principalmente a do Botafogo que atualmente está disputando a série B do Brasileiro (começando muito bem inclusive). A torcida do Comercial está mais machucada, precisa de uma SAF urgente para mudar o patamar do clube e voltar ao cenário paulista e nacional o mais breve possível. Eu não sei quanto tempo ficarei aqui ainda, mas quando voltar espero também voltar a trabalhar em um dos nossos clubes, pois sou da cidade e amo os clubes de Ribeirão Preto, joguei e trabalhei nos dois clubes. Quem sabe em breve estaremos de volta!
“Ribeirão Preto reafirma, dia após dia, sua vocação como um verdadeiro celeiro de campeões para o futebol brasileiro e mundial. A trajetória de Gustavo Silva é a prova viva de que a preparação técnica aliada à dedicação inabalável permite que nossos talentos alcancem qualquer destino que ousarem sonhar.

O Futebolando Pelo Mundo agradece imensamente ao Gustavo pela generosidade nesta entrevista. Desejamos todo o sucesso ao Al Markhiya SC e que a sua caminhada siga vitoriosa. Ficamos na torcida para que o seu retorno ao futebol de Ribeirão Preto aconteça o mais breve possível. O Santa Cruz e o Palma Travassos estarão sempre de braços abertos.”
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